quinta-feira, 9 de janeiro de 2014



Zeus pinta borboletas.


Zeus pinta borboletas. Ter-lhe-ia sido mais fácil, humano, recorrer ao seu poder divino e criá-las. Para ocupar os longos dias, plenos de tédio, da sua imensa eternidade, preferiu, num exercício de humildade divina, pintá-las. Talvez este momento traduza o instante mágico em que o demiurgo pinta ociosamente e as criaturas, bafejadas pela existência, surgem "ex nihil". Não custa imaginar os pequenos seres surgindo da tela, estonteados, no voo inaugural da sua breve existência.
No conto "A salvação de Wang-Fô" de M. Yourcenar (Contos Orientais), o velho pintor Wang escapa à clausura a que o imperador o condenara, pintando numa tela um mar de jade azul e nele um barco em que se evade, assim inventando a sua própria fuga.
Sobre borboletas e humanos, Chuang-Tzu (Poeta-filósofo, como distingui-los?, do século Iv a.c.), confundiu-nos-as assim belamente:

"Uma vez, eu, Chuang-Tzu, sonhei que era uma borboleta, que revoluteava e me divertia. Não tinha a mais pequena ideia de ser Chuang-Tzu. Depois, de súbito, despertei e fui de novo Chuang-Tzu. Não consigo determinar se terei sido Chuang-Tzu sonhando ter sido uma borboleta, ou uma borboleta que sonhara ser Chuang-Tzu. Todavia, alguma diferença deve existir entre Chuang-Tzu e uma borboleta! É a isto que chamamos a transformação das coisas"


a.rapazote





Dosso Dossi. Júpiter, Mercúrio, e a Virtude



 

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