sexta-feira, 31 de janeiro de 2014





A partilha

Após longa disputa, com origem no longínquo início dos tempos, deus e o diabo decidiram partilhar o universo.
- Eu fico com a parte do inferno e tu com o céu, disse o diabo, tomando a iniciativa negocial.
Deus aquiesceu, o reino do bem fora sempre o seu desígnio. Com a lenta mansidão que os justos põem nos mínimos gestos, recolheu-se em silêncio ao remoto céu, não sendo visto desde então. Supõe-se que, em beatitude, por lá reine até ao advento dos últimos tempos, por si concedidos à sua eternidade.
O diabo, então, voltando-se para nós, sorriu.


 a.rapazote


 

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

O paraíso é um lugar estranho
 
Num paraíso sombroso, sob uma macieira, um Adão anómico esconde um ramo de flores nas costas. No horizonte, mais claramente, anuncia-se o mundo sob a forma quotidiana de uma casa. O paraíso é um lugar estranho ao homem, as sombras que o habitam sabem-no.


a.rapazote
 
 

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014




VOZ PASSIVA

A engenhosa morte, bicho laborioso, minuciosamente nos reclama.

Encurralados no estreito beco do peito, rua a rua, somos menos cidade.

Em dia definitivamente escuro


Acordamos sem vizinhança com nada

Sem haver em nós quem seja


Nem de quem fomos memória.


Finado hemos de ser.



a.rapazote

domingo, 12 de janeiro de 2014


Insight


 A janela introduz-nos numa sala familiar. Ele, atento a nada, debruça-se sobre as páginas de um jornal circunstancial. Ela, numa postura dividida, senta-se voltada para ele, mas procura no piano, provavelmente desafinado, um acorde, uma melodia que diga a sua vida. Nenhum dos dois ainda disse nada, mas a porta, central, meando-os, insinua uma saída.
 a.rapazote


 


quinta-feira, 9 de janeiro de 2014





 
O lamento de Xerxes
 

Encostei a voz à muralha ardida de uma cidade sem nome.

De que me serve esta lança embotada

Entre aqueles que a sua longa mão apeou?

Ai das palavras em que sopra o férreo silêncio que a morte ordena,

Ai daqueles em que o seu frio acontece, pois são últimos.

O grande incómodo de existir revela-se em pequenas coisas

Como as rosas encarnadas da Amartis
 
Ferindo-as de uma significância inabitável.

As menores palavras, sem rasgo nem espanto

Como o fio de água do mínimo regato

Recolhem a dor maior.

Na praia ultramarina, sob o plúmbeo céu,

Minuciosas mãos miúdas desmantelam um vago barco.

Sou já todos os que estarão mortos dentro de cem anos.
 
Para onde vão os nomes, por que ninguém chama, quando anoitece?

Nunca houve dia.

A alvenaria do tempo requer uma gramática escura,

Instrumentos tácitos, como o tenso arco e a exacta seta

Ou mesmo a palavra luz, quando faca acesa.

Esta noite, parada no meio da vida, é uma palanca morta

Um casario ruído nas palavras,

Pertence à certeza caduca de que tudo sucede numa ordem.

As gaivotas, mortas no areal, são um despojo dessa tempestade

Ou as magras exéquias de uma dor insepulta?

 À mansa luz dos dias que me contam, resto no chão que salguei.

 O exercício da vida apenas assegura a dura pensão do olvido.

a. rapazote

Na morte de
Maria Adelaide

Em Março, olhaste o último cavalo da noite.
No undécimo dia do trezeno ano,
Tomaste um barco de nome inóspito
E subiste o rio que leva à foz mais alta.
Fez-se, nos que ficaram, um Inverno definitivo.
Deixaste-nos a província ultramarina do teu sorriso,
Pérola intacta, acesa no nosso escuro descontentamento.
A tua última voz reúne os que te continuam.
«Agora vão», disseste, «quero dormir».
 

a.rapazote
 




Francisco

Nada sabemos da escura gramática dessa noite.
Jazes nas cinzas para que voltaste
Ou já és nuvem?
O teu partir sem estrépito foi para Cartago
Ou para Cabinda?
«Somos isto, Francisco?», disse Maria
Com térreo horror na boca agastada.
Não sei que somos, apenas que caças.
No souto cerrado do que finda
Persegues no prado parada palanca
Ou a perene perdiz ainda?

Afinal, Francisco, todas as coisas são só isto.
 

a.rapazote
 



M.A.R.


Lembro-te árvore
Castanheiro, de ramos abertos com pássaros a arder
De diurno coração em frondoso riste e a voz exacta
Buscavas o espinhoso fruto de um sentido áureo
Para o inelutável absurdo da nossa contingência.
Eras então água acesa, lava corrente
Incêndio em parada no prado.

Outonaste sem doce fruto, Mangueira peregrina
Em chão de sumidos freixos e muros altos
Com as ameias do anoitecido coração
Armadas de palavras sem terra nem arados
Somando aos idos, os dias que não chegaram a vir 
E às sombras jacentes em volta, as crescentes na alma.

De cerrados ramos
Como mãos que desistiram de querer
Norte e aves  
Sei-te hoje perene, Oliveira.




a.rapazote












O Frio
O frio é, aqui, metafísico. O aquecedor e o casaco vestido evidenciam-no. Lá fora, onde aparentemente a noite está, as luzes alinham-se em direcção ao seu centro, nada iluminando. Nada há a iluminar nesta noite, apenas a treva na alma da mulher só, sentada no bar, com frio, na mesa do canto, defronte de uma cadeira que, de alguma forma o sabemos, ficará vazia para sempre.

a.rapazote


 



Zeus pinta borboletas.


Zeus pinta borboletas. Ter-lhe-ia sido mais fácil, humano, recorrer ao seu poder divino e criá-las. Para ocupar os longos dias, plenos de tédio, da sua imensa eternidade, preferiu, num exercício de humildade divina, pintá-las. Talvez este momento traduza o instante mágico em que o demiurgo pinta ociosamente e as criaturas, bafejadas pela existência, surgem "ex nihil". Não custa imaginar os pequenos seres surgindo da tela, estonteados, no voo inaugural da sua breve existência.
No conto "A salvação de Wang-Fô" de M. Yourcenar (Contos Orientais), o velho pintor Wang escapa à clausura a que o imperador o condenara, pintando numa tela um mar de jade azul e nele um barco em que se evade, assim inventando a sua própria fuga.
Sobre borboletas e humanos, Chuang-Tzu (Poeta-filósofo, como distingui-los?, do século Iv a.c.), confundiu-nos-as assim belamente:

"Uma vez, eu, Chuang-Tzu, sonhei que era uma borboleta, que revoluteava e me divertia. Não tinha a mais pequena ideia de ser Chuang-Tzu. Depois, de súbito, despertei e fui de novo Chuang-Tzu. Não consigo determinar se terei sido Chuang-Tzu sonhando ter sido uma borboleta, ou uma borboleta que sonhara ser Chuang-Tzu. Todavia, alguma diferença deve existir entre Chuang-Tzu e uma borboleta! É a isto que chamamos a transformação das coisas"


a.rapazote





Dosso Dossi. Júpiter, Mercúrio, e a Virtude



 




Sabedoria

A derradeira sabedoria abre-se à morte doce 
Às mãos cheias de vinho
Ao breve céu da boca que se cala no corpo.
No restolho da memória, acesa sombra, o seu verso espera.
Um cão sentado vela-o.
Que alonga o voo da ave que se perdiz?
A única sabedoria habita o cimo paciente do dia
Lugar sem vento no gesto, ou vontade sequer.
Sem a perturbação oblíqua de uma esperança
Adormece na memória ínsone da milionésima primeira noite.

a.rapazote