Ateei 365 incêndios
na noite de que partiste.
Na minha carne
devastei a terra inteira e, transido, chorei.
Não cauterizei
os dias, mas já consigo erguê-los um a um
Medindo sombras
na lama, enquanto as cinzas caiem na alma.
Traço agora
diagonais infinitas entre o que me resta e nada esperar
Pois a alma embevecida
carece de actividades improváveis.
Sei hoje haver dores altas como ciprestes
Dores que se alongam como muros escuros
De quintais de que ninguém cuida
Dores que se demoram antes de ficarem para sempre
Dores que se habituam a nós e nos habitam
Nos chamam seus
Dores cujo secreto exercício isenta o olhar das palavras.
As que acendeste reclamam água e terra, rito e vassalagem
De quintais de que ninguém cuida
Dores que se demoram antes de ficarem para sempre
Dores que se habituam a nós e nos habitam
Nos chamam seus
Dores cujo secreto exercício isenta o olhar das palavras.
As que acendeste reclamam água e terra, rito e vassalagem
O tempo inteiro
da palavra para o silêncio de um verso.
Hoje não digo “rosa”, “ orvalho”, “manhã de Março”
Sem que um
soluço me capture o perímetro oceânico da voz
E a última nau
parta para a errância quieta das coisas sem comércio
Ardendo noite
adentro em mim.
a. rapazote