sexta-feira, 7 de março de 2014


A ERRÂNCIA QUIETA DAS COISAS SEM COMÉRCIO
Ateei 365 incêndios na noite de que partiste.
Na minha carne devastei a terra inteira e, transido, chorei.
Não cauterizei os dias, mas já consigo erguê-los um a um
Medindo sombras na lama, enquanto as cinzas caiem na alma.
Traço agora diagonais infinitas entre o que me resta e nada esperar 
Pois a alma embevecida carece de actividades improváveis.
Sei hoje haver dores altas como ciprestes
Dores que se alongam como muros escuros
De quintais de que ninguém cuida
Dores que se demoram antes de ficarem para sempre
Dores que se habituam a nós e nos habitam
Nos chamam seus
Dores cujo secreto exercício isenta o olhar das palavras.
As que acendeste reclamam água e terra, rito e vassalagem
O tempo inteiro da palavra para o silêncio de um verso.
Hoje não digo “rosa”, “ orvalho”, “manhã de Março”
Sem que um soluço me capture o perímetro oceânico da voz
E a última nau parta para a errância quieta das coisas sem comércio
Ardendo noite adentro em mim.
a. rapazote