sexta-feira, 20 de junho de 2014




 



NATUREZA-MORTA



Embargada pela gramática exausta

Que a vincula ao léxico manso

Ao grosso uso dos dias

À literalidade das coisas contingentes

Na inabitável espera, ferida de deus

Quase árvore desvairada

Abrindo o leito inerte do verbo

Ao desassossego substantivo do verso

A poesia forja a língua que a compreende

Com palavras de assombro, estranhas aves 

Que se debatem, agónicas, no seu subsolo.

Na terrível perfeição do seu inacabamento

Sem utensílio nem firmamento

O poema fala a falha geológica da linguagem

Cravando a sua natureza morta

No escuro coração mineral do silêncio:

A acoitada perdiz silente, a lesta lebre hirta

A rotunda uva distinta, o voraz goraz maturado

O berrante faisão anoitecido, o veloso gamo escalado

A meada romã madura, o certo cão adormecido.



a. rapazote