NATUREZA-MORTA
Embargada pela gramática exausta
Que a vincula ao léxico manso
Ao grosso uso dos dias
À literalidade das coisas contingentes
Na inabitável espera, ferida de deus
Quase árvore desvairada
Abrindo o leito inerte do verbo
Ao desassossego substantivo do verso
A poesia forja a língua que a compreende
Com palavras de assombro, estranhas aves
Que se debatem, agónicas, no seu subsolo.
Na terrível perfeição do seu inacabamento
Sem utensílio nem firmamento
O poema fala a falha geológica da linguagem
Cravando a sua natureza morta
No escuro coração mineral do silêncio:
A acoitada perdiz silente, a lesta lebre hirta
Ao desassossego substantivo do verso
A poesia forja a língua que a compreende
Com palavras de assombro, estranhas aves
Que se debatem, agónicas, no seu subsolo.
Na terrível perfeição do seu inacabamento
Sem utensílio nem firmamento
O poema fala a falha geológica da linguagem
Cravando a sua natureza morta
No escuro coração mineral do silêncio:
A acoitada perdiz silente, a lesta lebre hirta
A rotunda uva distinta, o voraz goraz maturado
O berrante faisão anoitecido, o veloso gamo escalado
A meada romã madura, o certo cão adormecido.
a. rapazote
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