Sumário das causas primeiras das grandezas passadas e das muitas aflições presentes dos constantes Lusitanos.
Só a luz das causas primeiras apazigua a Razão, quando esta põe diante dos olhos os desmandos, os desacertos e as injustiças do mundo. Talqualmente as misérias, as grandezas dos homens e as virtudes dos povos só se legitimam aos olhos da Razão quando as ilumina aquela mesma luz. Estas breves letras não visam esclarecer cabalmente um assunto que a negligência dos homens, e as trevas dos tempos, ocultaram sob o espesso manto do esquecimento. O que as motiva é apenas o salutar anseio da procura e aprendizagem das coisas passadas, para melhor compreensão dos inamovíveis infortúnios de que as gentes padecem, sempre de forma desigual, no lusco-fusco do tempo que vivemos. No estudo das origens colhemos paciente ensinamento e benévola consolação para os infames males presentes, o que apouca a sua aflição e nos lança na busca de um vento para outro futuro . A notícia primeira do que busco, antecede no tempo a ventosa Tróia e a guerra que nela se travou entre deuses e homens, levando-nos a um tempo remoto, em que a beleza de um rosto conseguiu o irrepetido feito de lançar mil navios, inúmeros reis e incontáveis homens, numa peleja de dez longos anos, a que vieram pôr termo o incêndio da flamejante cidade e a perdição de todos os belicosos heróis nela presentes. As razões da contenda de que trato nunca foram inteiramente percebidas, tendo o decurso do tempo ocultado as suas verdadeiras causas, sob as muitas e desvairadas vozes que se sucederam sobre o assunto, de forma que não podemos nós hoje dizer nada sobre a matéria, que não tivesse sido já referido por outros com mais detalhada clareza e informada ciência. Tendo como única fonte os ecos daquelas contraditórias vozes, e delas apenas colhendo, sem as discriminar, as que se perfilam como mais plausíveis, passo ao tema. É provável que tudo se tivesse precipitado com o escandaloso furto, perpetrado pelo furtivo Hermes, de uma garbosa ninfa que Zeus metamorfoseara em vitela e que ainda não conhecera o aguilhão. Febo Apolo, seu proprietário, que a estimava mais do que aqui cabe referir, gozava de muitos e solenes atributos, de entre os quais sobressaíam os de ser o senhor da morte súbita, com suas flechas infalíveis, da música, com a sua flauta encantatória, das doenças, por meios cujo conhecimento não chegou até nós, e da vingança, que se valia de todas as maneiras possíveis. Possuía ainda o divino proprietário, uma competência que se sobrepunha a todas as outras insignes qualidades que decoravam o seu luminoso carácter; a de punir as violações da lei sagrada. O nojo pelo furto, coisa de sempre entre os deuses e de algumas vezes entre os homens, era assente na crença da intangibilidade da propriedade, constituindo um forte arrimo da jurisdição olímpica, cujo desrespeito acarretava as mais terríveis penas. Se pela repetida e aturada leitura dos poetas antigos, alguns tomam conhecimento do amor que os deuses devotavam ao armento, pela vida tal como a vivemos, seus modos e recorrências, todos nós sabemos da insânia e do desatino a que são votados aqueles que o alígero sentimento toma. No peito reluzente do oblíquo Apolo, uniram-se o despeito e o sentimento exarcebado que o unia à bela vitela, comunando-se ambos na vontade capaz de punir os delitos de que aquele usufruía, o que, tudo junto, apenas poderia originar consequências devastadoras, como se saberá adiante. Porque também no Olimpo a justiça ordena o direito, codificando-o volumosamente, foram determinadas diligências várias, aturadamente efectuadas entre eles, em resultado das quais os deuses não conseguiram acertar-se na atribuição de uma fundada culpa a nenhum deles. Sucedeu então que, sob a férrea influência das indómitas fúrias, o irado Apolo lançou-se no mundo com vesânia dobrada pela cega vingança, tomando os seus iracundos actos por vítimas, preferentemente, os cães velozes, os mulos cinzentos e os homens vulgares. Fulminados os infaustos galgos e os demais cães, cuja velocidade em demasia condenara, foi-se o filho de Zeus aos cínzeos mulos, dizimando-os à força de certeiros coriscos. O enfurecido deus tornou-se então para os homens vulgares com nefasto denodo e sobre eles se lançou à setada. A humanidade, constituída na sua enorme maior parte por homens comuns, viu-se, a breve trecho, conduzida à sua quase extinção no imenso orbe sub lunar, não sobrevivendo do grande números daqueles, mais que uns escassos poucos, babelicamente dispersos pelas quatro partes do mundo. Segundo atestam os relatos mais verosímeis, nunca vividamente confirmados, os mais extraordinários indivíduos que integravam a outrora numerosa humanidade, todos eles esplêndidos nos usos e ilustrados eruditos de ciência vária e completa nas artes, refugiaram-se nesta recôndita região da Ibéria, a sobre todas notada Lusitânia, onde porfiadamente prosperaram, apesar das crescidas agruras a que o infortúnio próprio e os interesses mesquinhos dos outros povos sobrevivos, os sujeitaram. Os seus avisados descendentes, a confirmar-se a veracidade da fama, por certo cultivam os mesmos usos e qualidades dos seus maiores, pelo que apesar das provações a que a fortuna os expõe, nunca se isentando eles da culpa própria na determinação do seu destino, são, ainda hoje, a glória e exemplo do mundo, o reluzente espelho de todas as virtudes, o imorredouro farol da esperança no futuro da humanidade, atenta a demonstrada excelência das suas origens. Contudo, não sendo certo o facto destes homens serem aqueles que hoje somos, ou de, sequer, termos por costumes as ancestrais virtudes daquela insigne gente, cabe-me apenas dar notícia do assunto referido por muitos, em obras cujo rasto se perdeu, compilando as fragmentadas vozes ainda vivas, para aprendizagem dos homens de hoje e arrimo da sua porfia quotidiana contra os revezes da sorte.
NOTA DO EDITOR:
Texto inscrito em tabuinha de buxo, de autor desconhecido, circa século I A.D., descoberta nas ruínas de um edifício público situado em Emerita Augusta. Após estudarem o contexto do local onde foi descoberta, os arqueólogos aventaram a hipótese de se tratar de um texto produzido por um ocioso burocrata ao serviço da administração romana. Atendendo às imprecisões factuais, mitológicas e literárias contidas no fragmento transcrito, aos anacronismos notoriamente fantasiosos e à total ausência de referências culturais frequentes nos textos coevos, alguns estudiosos afirmam tratar-se da introdução a uma obra menor, não referenciada, de um obscuro literato ibero, romanizado, versado na compreensão de textos de complexidade limitada. Estudos mais recentes, efectuados às estruturas gramaticais e semânticas do fragmento, vieram reforçar esta tese, vindo a concluir que a literacia do autor não excedia a capacidade de ler e escrever cartas.
a.rapazote
Só a luz das causas primeiras apazigua a Razão, quando esta põe diante dos olhos os desmandos, os desacertos e as injustiças do mundo. Talqualmente as misérias, as grandezas dos homens e as virtudes dos povos só se legitimam aos olhos da Razão quando as ilumina aquela mesma luz. Estas breves letras não visam esclarecer cabalmente um assunto que a negligência dos homens, e as trevas dos tempos, ocultaram sob o espesso manto do esquecimento. O que as motiva é apenas o salutar anseio da procura e aprendizagem das coisas passadas, para melhor compreensão dos inamovíveis infortúnios de que as gentes padecem, sempre de forma desigual, no lusco-fusco do tempo que vivemos. No estudo das origens colhemos paciente ensinamento e benévola consolação para os infames males presentes, o que apouca a sua aflição e nos lança na busca de um vento para outro futuro . A notícia primeira do que busco, antecede no tempo a ventosa Tróia e a guerra que nela se travou entre deuses e homens, levando-nos a um tempo remoto, em que a beleza de um rosto conseguiu o irrepetido feito de lançar mil navios, inúmeros reis e incontáveis homens, numa peleja de dez longos anos, a que vieram pôr termo o incêndio da flamejante cidade e a perdição de todos os belicosos heróis nela presentes. As razões da contenda de que trato nunca foram inteiramente percebidas, tendo o decurso do tempo ocultado as suas verdadeiras causas, sob as muitas e desvairadas vozes que se sucederam sobre o assunto, de forma que não podemos nós hoje dizer nada sobre a matéria, que não tivesse sido já referido por outros com mais detalhada clareza e informada ciência. Tendo como única fonte os ecos daquelas contraditórias vozes, e delas apenas colhendo, sem as discriminar, as que se perfilam como mais plausíveis, passo ao tema. É provável que tudo se tivesse precipitado com o escandaloso furto, perpetrado pelo furtivo Hermes, de uma garbosa ninfa que Zeus metamorfoseara em vitela e que ainda não conhecera o aguilhão. Febo Apolo, seu proprietário, que a estimava mais do que aqui cabe referir, gozava de muitos e solenes atributos, de entre os quais sobressaíam os de ser o senhor da morte súbita, com suas flechas infalíveis, da música, com a sua flauta encantatória, das doenças, por meios cujo conhecimento não chegou até nós, e da vingança, que se valia de todas as maneiras possíveis. Possuía ainda o divino proprietário, uma competência que se sobrepunha a todas as outras insignes qualidades que decoravam o seu luminoso carácter; a de punir as violações da lei sagrada. O nojo pelo furto, coisa de sempre entre os deuses e de algumas vezes entre os homens, era assente na crença da intangibilidade da propriedade, constituindo um forte arrimo da jurisdição olímpica, cujo desrespeito acarretava as mais terríveis penas. Se pela repetida e aturada leitura dos poetas antigos, alguns tomam conhecimento do amor que os deuses devotavam ao armento, pela vida tal como a vivemos, seus modos e recorrências, todos nós sabemos da insânia e do desatino a que são votados aqueles que o alígero sentimento toma. No peito reluzente do oblíquo Apolo, uniram-se o despeito e o sentimento exarcebado que o unia à bela vitela, comunando-se ambos na vontade capaz de punir os delitos de que aquele usufruía, o que, tudo junto, apenas poderia originar consequências devastadoras, como se saberá adiante. Porque também no Olimpo a justiça ordena o direito, codificando-o volumosamente, foram determinadas diligências várias, aturadamente efectuadas entre eles, em resultado das quais os deuses não conseguiram acertar-se na atribuição de uma fundada culpa a nenhum deles. Sucedeu então que, sob a férrea influência das indómitas fúrias, o irado Apolo lançou-se no mundo com vesânia dobrada pela cega vingança, tomando os seus iracundos actos por vítimas, preferentemente, os cães velozes, os mulos cinzentos e os homens vulgares. Fulminados os infaustos galgos e os demais cães, cuja velocidade em demasia condenara, foi-se o filho de Zeus aos cínzeos mulos, dizimando-os à força de certeiros coriscos. O enfurecido deus tornou-se então para os homens vulgares com nefasto denodo e sobre eles se lançou à setada. A humanidade, constituída na sua enorme maior parte por homens comuns, viu-se, a breve trecho, conduzida à sua quase extinção no imenso orbe sub lunar, não sobrevivendo do grande números daqueles, mais que uns escassos poucos, babelicamente dispersos pelas quatro partes do mundo. Segundo atestam os relatos mais verosímeis, nunca vividamente confirmados, os mais extraordinários indivíduos que integravam a outrora numerosa humanidade, todos eles esplêndidos nos usos e ilustrados eruditos de ciência vária e completa nas artes, refugiaram-se nesta recôndita região da Ibéria, a sobre todas notada Lusitânia, onde porfiadamente prosperaram, apesar das crescidas agruras a que o infortúnio próprio e os interesses mesquinhos dos outros povos sobrevivos, os sujeitaram. Os seus avisados descendentes, a confirmar-se a veracidade da fama, por certo cultivam os mesmos usos e qualidades dos seus maiores, pelo que apesar das provações a que a fortuna os expõe, nunca se isentando eles da culpa própria na determinação do seu destino, são, ainda hoje, a glória e exemplo do mundo, o reluzente espelho de todas as virtudes, o imorredouro farol da esperança no futuro da humanidade, atenta a demonstrada excelência das suas origens. Contudo, não sendo certo o facto destes homens serem aqueles que hoje somos, ou de, sequer, termos por costumes as ancestrais virtudes daquela insigne gente, cabe-me apenas dar notícia do assunto referido por muitos, em obras cujo rasto se perdeu, compilando as fragmentadas vozes ainda vivas, para aprendizagem dos homens de hoje e arrimo da sua porfia quotidiana contra os revezes da sorte.
NOTA DO EDITOR:
Texto inscrito em tabuinha de buxo, de autor desconhecido, circa século I A.D., descoberta nas ruínas de um edifício público situado em Emerita Augusta. Após estudarem o contexto do local onde foi descoberta, os arqueólogos aventaram a hipótese de se tratar de um texto produzido por um ocioso burocrata ao serviço da administração romana. Atendendo às imprecisões factuais, mitológicas e literárias contidas no fragmento transcrito, aos anacronismos notoriamente fantasiosos e à total ausência de referências culturais frequentes nos textos coevos, alguns estudiosos afirmam tratar-se da introdução a uma obra menor, não referenciada, de um obscuro literato ibero, romanizado, versado na compreensão de textos de complexidade limitada. Estudos mais recentes, efectuados às estruturas gramaticais e semânticas do fragmento, vieram reforçar esta tese, vindo a concluir que a literacia do autor não excedia a capacidade de ler e escrever cartas.
a.rapazote
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