A Rosa de São João
O sol entrava pelas janelas corridas da cozinha e dourava o balcão onde o esplêndido lombo de vaca, estendido, resplandecia. A seu lado, as cebolas descascadas, o feijão verde e os alhos amanhados na bacia verde, alinhavam-se para o assado que a Rosa, com gosto simples e mão experimentada, que é receita segura para o sucesso de quase tudo na vida, ultimava para o jantar. No aparelho de rádio portátil, comprado a prestações mensais na Singer, a Emissora Nacional emitia um programa de variedades musicais, onde pautavam as vozes xaroposas de vedetas da canção ligeira com que ela sonhava acordada e por que suspirava, à noite, no abrigo do quarto da cave que ocupava. O seu aposento, singelamente mobilado, era servido por uma escada que conduzia a uma porta de acesso exclusivo ao jardim, ficava mesmo ao lado da garagem onde, estacionado, envelhecia imobilizado o Mercedes preto, modelo 180, do senhor, que não chegara a conhecer pois falecera antes do seu tirocínio na casa. Rosa, moça trigueira e roliça, nada e criada numa aldeia transmontana, viera servir para as remotas paragens dos Estoris, em casa abastada de senhora idosa, que vivia sozinha desde o sofrido passamento do marido, homem naturalmente bom e comerciante de sucesso com fazenda longínqua, em terras africanas do Congo dito Português, para onde rumara quase imberbe no dealbar do século 20 e onde porfiadamente realizou o sonho empresarial que o animara desde sempre. Terras remotas onde a sua afável bonomia e o escrúpulo posto na palavra, não apenas no seu uso cuidado, mas muito principalmente no seu cumprimento, coisa de gente rara então, de quase nenhuma de agora, lhe conquistou o respeito da comunidade e a consideração das instituições locais. O seu Mercedes, quase sem quilometragem, seria mais tarde vendido a um taxista, e não haveria azo para espanto se ainda subisse e descesse as colinas de Lisboa, recolhendo e entregando turistas surpreendidos pela tenaz longevidade do fogareiro, muito naturalmente conduzido por farto taxista de grosso bigode e vocabulário da mesma condição. Senhora e Rosa partilhavam uma imensa casa vazia. A solidão de ambas apenas era interrompida pelas oportunas visitas e estadias das filhas da senhora, que nas suas vindas lhe traziam os genros e os netos, em número que assustaria a determinação de qualquer pessoa que tivesse a incumbência de assegurar a sua ordem e manutenção, mas não a alteada Rosa. Tresmalhados, os miúdos espalhavam-se pelo relvado do jardim, a que se acedia por uma escadaria ladeada por gerânios encarnados. No baloiço, fixado por grossos grampos ao relvado, organizavam competições com o objectivo de determinar quem conseguia saltar mais longe, acontecendo que, por vezes, as coisas não corriam de acordo com o que pretendiam, mas consoantemente às naturais leis da física, e então era comum os joelhos esfolarem-se na empresa. Quando veraneava, os netos da senhora, que medravam como podiam pelas austeras terras de Trás-os-Montes, ali arribavam ávidos de mar, fazendo estação e alterando a quietação ordenada dos dias que circulavam acorrentados a demorados silêncios e lentas rotinas, acentuados uns e outras pelos contrastantes rádios sempre ligados. Na cozinha, a telefonia da Rosa noticiava os últimos desenvolvimentos da volta a Portugal em bicicleta onde, aparentemente, as coisas estavam a correr de feição ao óbvio Joaquim Agostinho, escalador rústico de perna grossa e rosto saloio, que brilhara recentemente em França ao vencer em esforço, heroicamente, repetira o enfático jornalista ao microfone, uma etapa de montanha do mais elevado grau de dificuldade. Mas ela, anelante, aguardava pelo folhetim radiofónico, o simplesmente Maria. História que ela sentia repartir paredes, sem coincidir integralmente, com a história da sua vida. Os personagens, não sei se relato com fidelidade o enredo, mas creio que orbitavam uma singela e prototípica Maria que viera da aldeia serrana para a grande cidade e aí, inevitavelmente, se deixara seduzir por um vulgar conquistador, de ofício oleoso à semana e de brilho pastoso no cabelo e cigarro esgotado ao canto da boca, ao fim de semana, encostado ao balcão do bar onde os bombeiros voluntários locais, aos domingos, organizavam bailes para folguedo de sopeiras e magalas. Quotidianamente, em horário regulado, a desgraçada Maria padecia as poucas fortunas e os inúmeros e inevitáveis infortúnios do amor, em sintonizadas telefonias, cozinhas e criadas do país inteiro. Sentada na senhorinha de coçado veludo rosa, no seu quarto de 1º andar, a senhora rezava o terço com o Philips sintonizado na Renascença, enquanto pedia a Deus a sua salvação e a de todos os muitos que eram os seus. E o silêncio, imenso em volta dos rádios, pautava os dias de ambas. Mas os meninos tinham chegado ontem, as coisas tinham mudado. A campainha soou na cozinha, Rosa olhou o quadro que, suspenso na parede, indicava o número 1, a senhora a chamava. Rosa, já foste buscar os meninos à praia? Que não, mas que ia pronto, mal acabasse de pôr a carne a assar ao lume lento. Os meninos divertem-se por certo, senhora. E assim era. Na praia, de acesso escondido na estrada marginal, as arribas ostentavam um ambicioso edificado de traça tradicional, com íngremes escadarias privadas de acesso ao passadiço, e os meninos corriam no diminuto areal, mergulhando com alegria na estreita língua de água que separava a margem de um rochedo, apelidado de corvo por ser poiso frequente daquela ave abundante, e a que subiam, melhor seria dizer que escalavam, como se de um evereste marítimo se tratasse. A Rosa abreviou a felicidade dos pequenos chamando-os e recolhendo apressadamente as coisas da praia, os sacos, os termos dos sumos, os tupperware´s que haviam contido deliciosas bolas de berlim, e as toalhas ainda molhadas do último banho. Um dos pequenos persistia em bater teclas imaginadas num pequeno banco de madeira. A Rosa aproximou-se interpelando-o para parar com as escrituras. O petiz alimentava o secreto sonho de vir a ser poeta. Da clandestina actividade que desenvolvia no ramo havia resultado, em esforço, um poema que, salvo erro, rezava com ênfase exclamativa: “Ao longe, muito ao longe!/ Não!, porque ao longe muito ao longe, não há fim!/Só eu é que sei, só eu é que sinto, a dor que diz/Que ao longe, muito ao longe, não há fim.” Início promissor, portanto. Não sei se chegou a ser tocado por musa mais auspiciosa. A Rosa, mulher châ cujas leituras aprofundadas dos folhetins da Corín Tellado haviam alçado a crítica literária impiedosa, a quem o miúdo havia segredado a sua ambição, sentenciou o sucesso do nóvel poeta com gargalhada franca, no limite do estrondo. A praia terminara ainda o sol dizia presente, mas já quase se despedira. A Rosa entregara os meninos de volta à tutela da avó que, com aplicada curiosidade os indagava sobre as novidades acerca da praia. Que coisas poderiam haver ainda de novo, com que não se surpreendera ainda, coisas que não tivesse visto ou de que não tivesse ouvido falar na sua longa vida, e que lhe pudessem despertar ainda a vontade de mais saber? Pessoas há que tratam da vida, como se o seu suceder fosse coisa doente. A velha senhora sempre cuidara do que a vida pusera diante de si, na crença segura de que o esmero com que cuidamos do que é nosso e dos nossos, aperfeiçoa o viver próprio e o daqueles que nos são próximos. Vivera com desvelada devoção às coisas e às pessoas, não as tomando por imperfeitos males, mas por inacabados bens a haver, se cuidadas como devido. A firme senhora, mulher de ilustrada e definitiva vontade para com todos, reservava para os netos, sentados no chão da sala, à volta do seu sofá, o carinho atento, a doce palavra lengalengada, histórias meadas que desfiava gesticulando com as mãos de sumida carne e grossas veias. “Sola sapato/Rei rainha/Foi ao mar/buscar sardinha… Pico, pico seranico/Quem te deu tamanho bico.” O jantar está servido, assoma Rosa à porta entreaberta, de alvo sorriso grande. A travessa da fumegante carne assada, com batatas fritas e feijão verde cozido a ladearem-na, estava disposta na mesa grande, dos adultos. Os miúdos, numa iniciação ritual à hierarquia da ordem social em que se inseriam, comiam na mesa pequena, ao canto da sala. A senhora ainda viveu mais alguns anos rodeada do jardim, dos netos e do relvado com o baloiço, até que, como sucede quase sempre, a vida quis outra coisa para ela. A vencida Rosa, depois de lavar a louça, arrumar as panelas e lavar o chão da cozinha, retirou-se para o seu agasalho. Entorpecida pelo cansaço, ainda teve forças para folhear o último folhetim Corín Tellado, antes de adormecer suspirando. Ia sonhar que o José Cheta a tomava nos braços, enlevando-a, enquanto o sol se punha no termo do passeio dominical à Boca do Inferno. Só para ela, ele cantaria a sua música preferida: “Foi para lá daqueles montes”. A Rosa veio a casar-se com o anunciado magala e deixou de servir, o seu marido queria-a dona de casa e ela, resumida, foi viver outra vida.
A Vivenda Maria de Lourdes, é hoje a sede de uma sociedade de advogados especializada em negócios internacionais.
a.rapazote


