quinta-feira, 9 de janeiro de 2014





 
O lamento de Xerxes
 

Encostei a voz à muralha ardida de uma cidade sem nome.

De que me serve esta lança embotada

Entre aqueles que a sua longa mão apeou?

Ai das palavras em que sopra o férreo silêncio que a morte ordena,

Ai daqueles em que o seu frio acontece, pois são últimos.

O grande incómodo de existir revela-se em pequenas coisas

Como as rosas encarnadas da Amartis
 
Ferindo-as de uma significância inabitável.

As menores palavras, sem rasgo nem espanto

Como o fio de água do mínimo regato

Recolhem a dor maior.

Na praia ultramarina, sob o plúmbeo céu,

Minuciosas mãos miúdas desmantelam um vago barco.

Sou já todos os que estarão mortos dentro de cem anos.
 
Para onde vão os nomes, por que ninguém chama, quando anoitece?

Nunca houve dia.

A alvenaria do tempo requer uma gramática escura,

Instrumentos tácitos, como o tenso arco e a exacta seta

Ou mesmo a palavra luz, quando faca acesa.

Esta noite, parada no meio da vida, é uma palanca morta

Um casario ruído nas palavras,

Pertence à certeza caduca de que tudo sucede numa ordem.

As gaivotas, mortas no areal, são um despojo dessa tempestade

Ou as magras exéquias de uma dor insepulta?

 À mansa luz dos dias que me contam, resto no chão que salguei.

 O exercício da vida apenas assegura a dura pensão do olvido.

a. rapazote

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