sábado, 1 de fevereiro de 2014


O Gramático

Para a construção dos seus textos recorria a materiais menores, de vária proveniência e incerta qualidade. Talheres de metal envelhecido, pedras semi-preciosas, isqueiros estragados e outra parafernália empobrecida, frequentavam-lhe o estro rústico. Com lento, mas robusto desvario, fustigava os textos com metáforas fatigadas, alagando-os com elas como os leitos dos rios fazem às margens quando correm cheios. Encastoava-os minuciasamente com palavras sem luz nem lustro, quais pechisbeques literários a que, com rigorosa imprecisão, apelidava de poemas. Noutros momentos de furor criativo, com metódico aprumo, usava alinhar as palavras num dominó sintáctico, convencido de que desse especioso exercício literal resultaria um soneto, um canto, quiçá um hexâmetro dactílico. Quando a mecânica combinatória o favorecia, o falido talento espreitava o torturado verso, nele sucumbindo à ausência de fulgor. A raridade de tais conseguimentos não o demoveu da ousada epifania de que o mundo era intrinsecamente determinado por uma ordem natural que, desde logo, naturalmente atribuíu a um demiurgo.  Munido desta improvável certeza, que cria inexpugnável ao assalto razoável de uma qualquer dúvida, adormeceu dogmaticamente na busca da nunca descoberta jurisdição universal,  regida pela estrita Necessidade, com que o bom deus dotara o mundo. Não sei se, na última hora, chegou a compreender que o permanente acaso e alguma persistência, podem gerar universos, nunca um sentido. 

 a.rapazote

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